Os primeiros registros que temos acesso em relação ao Kyphi estão presentes nas paredes das pirâmides. De acordo com a milenar tradição egípcia, este seria um dos bens que o Faraó poderia desfrutar após sua morte.

A entrega de resinas e ervas para a fabricação do Kyphi foi registrada em um antigo papiro encontrado nos templos dedicados a Ramsés III. Enquanto os egípcios desde sempre enxergaram transcendentalidade em seu aroma divino, estudos gregos definiram o Kyphi como um medicamento, de acordo com os estudos médicos de Dioscorides.

De acordo com os registros do antigo historiador grego, Plutarco, o incenso era queimado pelos sacerdotes do egito três vezes durante o dia: pela manhã, ao nascer do sol, queimavam o incenso. No meio-dia, queimavam mirra e, ao pôr do sol, queimavam Kyphi.

De acordo com as observações do historiador grego, o Kyphi tinha 16 ingredientes, e sua preparação era registrada diretamente nos escritos sagrados, de onde os perfumistas egípcios produziam a substância.

Séculos depois, o pesquisador de medicina Paulo definiu dois Kyphi: um da Lua, com 28 ingredientes, e outro do Sol, com 36 ingredientes em sua composição.

Uma combinação de ingredientes raros

Os registros variam entre si, mas todos mencionam ingredientes do Kyphi como mel, passas e vinho. Também é possível identificar na composição substâncias como casca de cássia, canela, cedro, bagas de zimbro, cana aromática, rizomas aromáticos de cyperus, incensos, mirra, benjoim, aroeira, e labdanum, entre outros.

No entanto, alguns dos ingredientes tradicionais do Kyphi permanecem uma incógnita até os dias de hoje. Em registros obtidos por receitas escritas em aramaico e grego, são citados os compostos “asphalatos”, que se acredita ser a raiz de um arbusto com espinhos, mas não há plena concordância sobre a origem deste termo.

A receita tradicional prevê que 16 ingredientes sejam misturados, envelhecidos, enrolados em uma espécie de esfera e, finalmente queimados para gerar uma agradável fumaça aromática.

Aroma duradouro, imortal

Até mesmo na tumba de Tutancâmon existia um frasco de Kyphi em forma de unguento – uma espécie de pomada ou perfume pastoso que, apesar do passar dos séculos, ainda manteve parte de seu perfume de maneira intacta.

O Kyphi é considerado por muitos como uma das fragrâncias mais complexas da história. Apesar de séculos de existência, até hoje é difícil reproduzir com exatidão fórmulas para desenvolver o composto aromático, tanto pela imprecisão nos registros históricos e nas receitas, como pela dificuldade na obtenção de alguns dos ingredientes, os quais são raros.

Historicamente, o Kyphi foi produzido sempre com muito rigor, atenção e até mesmo cerimônias que exaltavam seu aspecto sagrado. Isto fez com que esta substância de aroma único se tornasse objeto de obsessão e curiosidade para tantos historiadores, médicos, botânicos e outros pesquisadores interessados em descobrir mais sobre o Perfume dos Deuses do Antigo Egito.

Algumas versões contemporâneas do Kyphi excluíram da fórmula as resinas e o vinho tinto, utilizando outras fórmulas de processar os ingredientes. Atualmente, é uma fragrância muito usada para conter a ansiedade e promover paz e tranquilidade aos ambientes.